22 de maio de 2015

Porquê?


Já foi a alguns dias que aquele crime bárbaro chocou o país, mas só agora consigo escrever as palavras que teimavam em não passar da garganta. Só me ocorria uma palavra…AGONIADA! Foi assim que andei enquanto éramos bombardeados com as notícias e que a cada dia ganhavam contornos de malvadez. O jornal que sigo via internet, esmiuçou até ao mais ínfimo pormenor todo aquele cenário que se revelava cada vez mais macabro, e eu, a cada nova noticia que surgia na minha frente, jurava que seria a última que iria ler. Estava já para lá dos meus limites, mas dei por mim a ler sempre e a colocar-me no lugar do Filipe. Eu sou mãe e sou tia, precisamente de um rapaz da mesma idade que ele e não consigo imaginar sequer tamanha dor. Mas mais que me colocar no lugar da mãe, eu colocava-me no lugar do Filipe.

Porquê? Porquê? Porquê?
Haverá explicação alguma para um acto daqueles? Nas aulas de psicologia aprendi que o carácter ganha-se, mas uma parte da personalidade é inata. Já nasce connosco, se vem no ADN, se é da alma que reencarna em nós, isso não importa. O que importa é que cada ser é único, mas em constante formação, porque a outra metade da personalidade vai sofrer toda a influência do ambiente e pessoas à sua volta.

Porquê? Perguntei eu muitas vezes a mim mesma, durante anos, depois de ter estado no lugar do Filipe. Por milésimos de segundo poderia ter tido o mesmo destino que o Filipe teve. Foi a sorte, ou o meu anjo da guarda que me protegeu. Poderia ter sido eu a ficar estendida no chão com o crânio esmagado. Trinta anos depois, ainda tenho bem presente aquele momento em que, sem saber que estava a ser perseguida, desviei instintivamente a cabeça para o lado direito e a rodei ligeiramente para trás. Nunca esquecerei aqueles olhos escuros, que saltavam dos buracos de uns collants de malha branca. Uns collants de menina. E menos ainda o cajado de madeira maciça, erguido ao alto e pronto para desferir o golpe fatal. E nem esquecerei a dor que senti no ombro esquerdo. Corri e gritei mas ninguém me ouvia. Não havia ninguém para escutar os meus gritos de socorro. E naquela estrada era só eu e ele, e muito campo à nossa volta. E um café fechado, porque era quinta-feira. E uma casa com uma idosa e a filha surda. Ainda me acertou mais uma vez de raspão e depois fugiu, o covarde. Porque eu corria mais e gritava por ajuda. O Filipe não teve a mesma sorte. Não tinha por onde fugir.

Continuei, apanhei o autocarro e fui à consulta de fisiatria que tinha marcada. Ainda lhe contei os momentos de terror que vivi, mas ela, nem uma palavra, um conselho, ou um…”Mostra lá o ombro!”…Nada! Eu sei que ela era só a médica que fora apanhada de surpresa numa história que não era dela. Dali fui à PSP e como não era do seu departamento, mandaram-me para a GNR, umas casas mais abaixo na mesma rua. Nunca me senti tão humilhada! Dois guardas para ouvir e registar a queixa. Vá lá que um deles se manteve sério e atento o tempo todo, enquanto eu lavada em lágrimas, contava os pormenores. O outro, sempre em tom irónico, ainda teve o desplante de insinuar que se tratava de um caso de zanga de pretendente rejeitado. Não me pediram para mostrar o inchaço no ombro, que a essa hora já tinha o tamanho de um ovo de galinha, dos pequenos. Não fotografaram para juntar à queixa e nem me mandaram ao médico. Muito menos ofereceram protecção para o caminho de volta a casa. Em pleno mês de Dezembro, os dias são curtos e anoitece cedo. Eu só pensava como iria fazer aqueles dois quilómetros que separam a paragem do autocarro, da quinta onde morava. Com um pouco de sorte podia ser que o meu pai lá estivesse à minha espera. Mas e se não estivesse?! Ele não gostava que eu e a minha irmã fizéssemos aquele caminho, de noite, sozinhas, mas às vezes lá calhava. Naquela época ainda não tinham inventado os telemóveis e telefone não havia em casa. Não tinha como avisar os meus pais. Só respirei de alívio quando, ao descer do autocarro lá vi a carrinha parada. Por coincidência, que não acredito que elas existam, nada é por acaso, o meu pai encontrou um borrego bebé perdido e na volta fomos entrega-lo precisamente na casa do meu agressor. Com aquele contratempo, decidi esperar para contar só depois. Aquele, era o último sítio onde eu quereria estar naquele momento. Descemos ambos da carrinha e enquanto o meu pai trocava umas palavras com o pai dele, eu em silêncio e o meu agressor também, olhamo-nos olhos nos olhos. Por mais meias que tivesse usado para ocultar o rosto, eu reconhecia-o à distância. Conhecia-o desde criança. Enfrentei-o com o olhar e ele não desviou o dele, um olhar frio, sem compaixão, mas que mostrava comprometimento. Estava protegida, tinha o meu pai, o meu anjo protector, mas mesmo assim achei melhor não falar por receio, por mim e por ele. Estávamos no covil do lobo! O pai dele, por muito que respeitasse o meu pai, também não era flor que se cheire.

Mais tarde, quando fomos chamados ao posto da GNR, ele e o pai dele, eu e os meus pais, senti na pele o que é ser-se injustiçado. Não podiam fazer nada porque ele só tinha 14 anos. 14!! Como é possível, se entrou para a escola primária um ano antes da minha irmã e ela à data já tinha 15 anos?! Foi a minha mãe que lhe fez as batas brancas para a escola, mal chegámos à quinta, a seguir à revolução do 25 de Abril. Se fosse hoje teria pedido para ver o cartão de cidadão, mas naquela época não se questionava a autoridade. Foi este episódio que mais tarde contribuiu para a minha decisão de ir para polícia.

As férias de Natal terminaram e tive que voltar às aulas. Faltava-me acabar uma disciplina. Entre o meu pai e o meu namorado, hoje marido, foram-se revezando para me acompanhar. Passei a ter guarda-costas naquele caminho de terra batida, mas com um a trabalhar e outro na tropa, um dia tive que enfrentar o inferno sozinha. Era inevitável e mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer. A meio caminho lá estava ele, apoiado no cajado e com as costas encostadas a um sobreiro, a poucos metros da estrada. Enchi-me de coragem, agachei-me, apanhei uma pedra e segui de cabeça erguida e em passo o mais natural possível. Estava determinada em não mostrar medo. As minhas pernas tremiam, mas só eu sabia. E na mão, a pedra pronta a fazer-lhe pontaria à cabeça, caso ele desse um passo na minha direcção. E eu até que era certeira na pontaria, tinha bom olho director, como disseram depois os meus instrutores no curso. Ele continuou imóvel. Eu passei e tentei não me virar para trás, mas sentia o olhar dele em mim. Só lá mais à frente e já no virar da curva, olhei e lá estava ele virado para o meu lado a ver-me e só aí já longe do seu alcance e fora do seu campo de visão, desatei a correr o quanto pude.
Depois disso, ainda provocou mais uns desacatos. Duas fracturas de crânio, com o mesmo cajado, uma num rapaz com deficiência e como bónus este passou um tempo hospitalizado em coma e a outra, a uma mulher que passava de bicicleta junta à casa deles. Uma tentativa de afogamento ao dono dos terrenos onde era habitual levar o rebanho a pastar. Ele era guardador de ovelhas. Por sorte os meus pais iam a passar e impediram que matasse o homem. Um assalto a uma residência e uma casa abandonada incendiada. O rol é grande!

Com a nossa saída de lá, perdi-lhe o rasto. Não sei se continuou a cometer crimes e a sair impune ou se algum dia foi conhecer as instalações prisionais. Quanto à minha pessoa, durante uns tempos (anos), sofri do síndrome de perseguição. Não conseguia ir na rua e sentir alguém atrás de mim. Tinha que olhar para trás, ou mudar de passeio. Felizmente isso passou e hoje só resta a lembrança de um mau momento passado.

O que leva alguém a tornar-se num delinquente? Deixo isso para os profissionais.
Mas não posso deixar de contar aqui um episódio passado, quando ele tinha os seus 11 ou 12 anos. Estava ele com o rebanho a pastar nos terrenos que os meus pais exploravam (nós sempre os deixamos fazer isso a custo zero, por uma questão de boa vizinhança). A mãe foi levar-lhe o almoço e a minha mãe e eu, que íamos de passagem, ficámos lá a conversar um pouco. O miúdo era de poucas falas, sempre assim foi. De cada vez que ia para espetar o garfo nas batatas, a mãe batia-lhe com uma vergasta na mão ou no braço e mandava-o comer. E ele retirava a mão. A medo avançava na direcção do garfo e levava mais uma vergastada e um: - “Come Octávio!” E esta cena repetiu-se e repetiu-se…Só tive vontade de lhe arrancar o pau das mãos e lhe dar com ele nas trombas para ela aprender a ser uma boa mãe! Fiquei chocada e a minha mãe também. Nunca compreendi aquilo, ainda mais vindo de uma mulher que parecia boa gente.

O que leva alguém a ter um comportamento desviante?

Eu diria que a falta de amor é com certeza um dos factores!



 Imagem via Pinterest (desconheço o autor)


2 comentários:

  1. Ainda bem que hoje somos alertados para esses acontecimentos que sempre existiram, tiveste Deus a teu lado acredito que por muito mau que seja ao exemplo em casa e muito mal tratados possam ser as crianças isso faz parte do caracter pois conheço um rapaz que viveu no meio da violência, da droga atravessava o rio Douro a nado sem ninguém se importar se iria ficar pelo meio e é um excelente ser humano um bom homem ,bom marido e bom pai pois para mim existem pessoas que são más de verdade sem precisar de motivo.

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  2. Pois, por isso eu digo que uma parte da personalidade já nasce com a pessoa, é-lhe inata. E é por isso que nem toda a gente reage da mesma forma, mesmo passando por situações idênticas. Agora que o meio envolvente e o amor ou falta dele, também podem influenciar e moldar o carácter da pessoa, lá isso pode. Eu acredito nisso!

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