agosto 24, 2015

Em busca das rochas perdidas...


Há memórias que perduram no tempo e que surgem como uma peça de um puzzle, pedaço de uma imagem a cores e com cheiros, de algo bem maior que se esbateu e sumiu da vista. Quarenta e dois anos depois dei comigo de nariz no ar a olhar para as encostas da praia da Rocha em busca de um sinal. Em busca do lugarzinho onde encaixar a peça do meu puzzle que guardo num recanto do meu coração. Dos intervenientes dessa história, desse momento de vida, dois casais e duas crianças, três já não se encontram entre nós. A felicidade vivida nesses dois dias de aventura rumo a terras algarvias numa Vauxhall Viva azul, essa, continua suspensa no tempo e no espaço e a existir no brilho dos meus olhos.

Desse pedaço de imagem rasgada de um cenário maior, resta um hotel, edifício alto de linhas direitas e na sua frente um largo, quiçá estrada alcatroada, mas com uma zona de terra batida lá mais à frente em declive e logo a seguir, uma encosta. Lá em baixo no final dessa encosta, a areia fina da praia, húmida e duas rochas enormes erguidas lado a lado.

Agora, ao percorrer toda aquela extensão da praia apercebi-me que afinal é enorme e que ou a encosta se modificou e o edifício desapareceu, ou retiraram as rochas do lugar. Convenhamos que em quatro décadas muita coisa pode acontecer. Tal como a vida, a natureza também está em constante mutação, umas vezes por ela própria e noutras, pela mão do homem.


Ao rever as fotos que tirei, apercebi-me que cometi uma falha imperdoável, não captei na mesma imagem as duas rochas lá existentes (as únicas possíveis de serem as minhas rochas), e em conjunto, o cenário que fica na parte de trás destas. 



Ao vivo, a encosta pareceu-me demasiado íngreme para ser a mesma que nós escalamos. A mesma que as mulheres do grupo desceram no passeio nocturno pelo areal e de onde regressaram cheias de pulgas-do-mar (ou não!). Possivelmente a memória traiu-me e a descida não ficava situada mesmo a meio das duas rochas e sim mais ao lado… Possivelmente…  



O meu obrigada aos meus parceiros nesta breve aventura pela costa algarvia e em especial aos meus anfitriões pela paciência, disponibilidade e prontidão em satisfazer o meu desejo! ;)

agosto 23, 2015

O Pai Natal este ano veio mais cedo...


Dizem que o Natal é quando o homem (ou a mulher) quiser e é verdade. Este post é a prova disso. O Pai Natal este ano veio em Agosto e desceu pela minha chaminé! Não trouxe presentes, mas fez magia e deixou-nos a lareira toda catita.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, que é como quem diz, mudam-se os sistemas de aquecimento. O que era lareira aberta passou a recuperador a lenha e com o correr do tempo e a insatisfação de tão pouco poder calorifico para tanto trabalho, procurou-se novas tecnologias. A pensar também no ambiente, optamos pelas pellets, que segundo dizem, são feitas a partir dos desperdícios e é uma forma de deixar as florestas mais limpas. E assim, lá voltamos ao início, à lareira aberta mas como objecto decorativo.



Realmente, tenho um marido muito habilidoso! :)
Agora só faltam uns pequenos retoques que ficam por minha conta. E entro no dilema...pintar as juntas de branco, ou num tom mais terra? Deixar os tijolos ao natural ou dar-lhe um pouco de "brilho"? Enquanto me decido e não decido, o caldeirão da maga vai ocupando o seu lugar!

agosto 16, 2015

Poás

“Um biquíni às bolinhas pequeninas…”

Não é um biquíni, mas uns chinelos de praia! Quem me conhece sabe que não sou pessoa de ir atrás de modas ou desenfreada em consumismos, mas também sou humana e de vez em quando sabe bem fazer umas compritas. Aproveitando a maré dos saldos e porque a praia me chama, lá fui em busca de uns chinelitos, que os meus pés de Cinderela já não estão na pré-história. Não é que não goste de andar descalça…adoro! Mas convenhamos que não é nada agradável andar a pisar alcatrão e outros locais bicudos.


E não é que lá do alto de uma prateleira, uns chinelos cor-de-rosa às bolinhas olharam para mim e piscaram-me o olho?! Imediatamente fiquei apaixonada e trouxe-os comigo para casa. Agora moram na minha sapateira e estão prontos para irem namorar o mar comigo. 




Gosto mesmo do padrão às bolinhas, grandes ou pequeninas, em loiças, tecidos, roupas, em mim ou na casa. Se não me metem travões ainda encho a casa de bolas! :)


julho 31, 2015

Um cheirinho a Primavera...

Hoje ao regressar a casa após mais uns mimos à minha tendinite de estimação, com um sol envergonhado a esconder-se por trás de uma pequena nuvem branca e a temperatura bem inferior àquela que se tem feito sentir nos últimos tempos, tive a sensação que estávamos de novo na Primavera! Até este nosso amiguinho deu o ar da sua graça, agora já não tão pequenote assim… E se não era ele, seria um dos irmãos. A nossa pitangueira foi agraciada com um ninho, que ano após ano, os papás melros ocupam para dar continuidade à sua espécie. Este ano a criação superou as expectativas e saíram de lá duas belas ninhadas, nascidas e criadas, uma após a outra numa mesma Primavera.

Chegou o tempo do primeiro voo e para nossa surpresa, fomos encontrar um dos pequenitos no espaço mais zen do nosso quintal, a tertúlia, onde se deixou fotografar com direito a sessão de festinhas!




 


julho 24, 2015

"Um Cofre Escancarado"




Chegou-me às mãos um livro muito especial, tão especial, que o ando a ler com todo o cuidado como se de uma peça rara se tratasse e tão delicada como a mais fina das porcelanas, que ao menor descuido se pode partir…

Tomei a ousadia de transcrever alguns trechos da obra, como uma pequena homenagem ao seu autor, pessoa conhecida das minhas relações. Trata-se de um senhor que nasceu sob as energias do Sol no signo de Touro, (tal como eu J ) e no penúltimo ano da 1ª República Portuguesa, o que dá umas boas nove décadas de muita sabedoria e um sem fim de memórias!

Como era habitual noutros tempos em certas alturas do ano, especialmente na época das vindimas, de outras regiões do país para terras do Ribatejo, vinham os ranchos a que denominavam de “as barroas”. Muitas eram mulheres ainda jovens e solteiras, pelo que, terminado o trabalho no campo, umas voltavam às suas terras e outras ficavam por cá…

Chegado o fim-de-semana, o rancho vem para casa. É esperado com ansiedade pelos homens do lagar, elas durante a semana treinavam em cantigas. Vêm mais queimadas do sol, talvez cansadas mas animadas. Entram no portão largo, desafiadoras, entre risos e galhofas, lançando…

Uma voz que se faz ouvir;

Oh parreira dá-me um cacho,
Oh cacho dá-me um baguinho,
Inda encontrarei o mê amor
Nos passos do mê caminho.

O Caixinha, que ficara de olho na rapariga, não se contém e lança:

Deitei o limão a correr
À beira de ti parou…
Quando o limão te quer bem
Que fará quem o deitou!

A visada responde de imediato:

Vai de roda, vai de roda,
Não ‘tejas com brincadeira
O mê par é guardador
Bota os pintos na capoeira.

Há palmas e assobios, mas o Caixinha reage com calma, suplicante:

Um favor te vou pedir
Amor, aperta-me a mão:
‘Inda espero de ser teu
Só que por ora, ‘inda não!
Mas a rapariga é rápida na resposta:

Já pisaste a uva branca
A uva tinta vais pisar;
Só a mim tu não pisas
Não sou uva p’ró teu lagar!

O Caixinha oscilou face à ‘estocada’. Todos vêem que o rapaz está a ficar ‘pelo beicinho’ com a moça… Reage, porém e numa espécie de apelo atira em voz doce:

Oh cachopa, oh meu carinho,
Oh anjo do meu altar:
Diz um ditado antigo
‘Quem desdenha, quer comprar’!

Antes que a rapariga tenha oportunidade de responder, o Zé Tomás ‘saca da gaita-de-beiços’ e sai-se com o som de um corridinho mexido.”…

E não é que a cachopa ficou mesmo com o Caixinha?! Juntaram os trapinhos e o rancho regressou sem ela! (conclusão tirada pela continuação da leitura)

Ante a Lei das Recordações, não se pode escamotear a verdade…
… nem apagar os erros – se os erros serão tropeços nos escolhos que a vida coloca nos caminhos do aprendizado de conhecimentos…
Sensato seria deixá-los na sombra do passado, como passado que é…
 … mas a mente sã alimenta-se de memórias!

Por tal, e porque as suas memórias pessoais só a ele pertencem, limito-me a transcrever para aqui, só algumas partes que considero que fazem parte das memórias colectivas…

A título de curiosidade, partilho com os meus leitores duas preciosidades de outros tempos:

- Chegou a existir um imposto sobre o uso do isqueiro em espaços públicos, pelo que, a falta do respectivo cartão para uso do dito cujo, dava direito a multa ou até a prisão na falta de pagamento.
Aos fumadores de hoje, quem diria hein??!! Muita gentinha hoje seria presa se essa lei ainda se mantivesse em vigor!

- Um outro dado que não posso deixar passar em branco, as portagens! Ainda nós reclamamos das que temos actualmente nas auto-estradas e das famosas scuts…

E não é que em tempos se cobrava portagem a quem passava a ponde D. Luís, à saída da mesma, do lado de Santarém?! Meio tostão era o que cada um pagava ao passar por lá e não era só de carro, acreditem, porque esses havia-os bem poucos.

Com uma mão cheia (ou as duas!), de cargos repartidos entre Repartições de Finanças pelo país fora, Tribunal e Ensino, ao que se soma ainda o de Director de um jornal regional, entre outras ocupações…Nascido em meio rural, onde o costume ficava-se por seguir as pisadas dos pais e de preferência servir de mão-de-obra gratuita ao sustento da família, não era qualquer um que fazia mais do que o ensino primário e muitas vezes nem isso! Falo-vos dos idos anos 30 e 40 do século passado. No caso deste ilustre senhor, valeu-lhe a sua enorme vontade de aprender e persistência. A par de tudo isto, desenvolveu ainda o gosto (se bem o entendi), pela escrita de literatura policial.

Pelo que é uma inspiração e um incentivo:

O trabalho é, de resto, o germe da condição humana: física, mental e moral. É no esforço do trabalho que o corpo se desenvolve e fortifica, a mente, aberta à capacidade de inteligência criadora, realiza-se e recria-se, testa e corrige o carácter e senso moral dessa condição.

Ainda mais que, fiquei a saber também, trabalhou numa terra que me enche o imaginário e as sensações! Óbidos! Terra dos meus encantos. Devo ter lá vivido numa outra encarnação! J

Ao autor, Sr. M.C., muito obrigada por nos escancarar o seu cofre das memórias. Para mim foi uma verdadeira viagem no tempo, a partir da qual irei ver com outros olhos as ruas da nossa pequena cidade e em especial a “rua da minha mãe” e a casa que agora é dela!




julho 19, 2015

É biológico, é bom!



Descaso de uns, delícia de outros!...
Meia dúzia de pêras e outros tantos pêssegos nasceram nas duas pequenas árvores e criaram-se sem intervenção humana e sem intervenção de ninguém iriam cair de podres. Os frutos arredondados, de cor dourada com uma face rosada, pendiam convidativos sem que ninguém lhes ligasse. Os donos daqueles 500 m2 de terreno há muito deixado ao abandono, têm mais que fazer do que vir de propósito apanhar umas míseras pêras bichentas (vá lá que até estavam bem sãs!), e lá convenci o marido a pular a cerca! Ahahah

Que diferença fazem daquelas compradas no supermercado! Podem até estragar-se mais facilmente, caso a mosca as tenha picado, mas têm sabor a natureza a sério. Que pena que os produtos que nos chegam hoje às nossas mesas tenham que ser tão adulterados. Nos poucos metros de terra que ainda existem no meu quintal, tentamos a todo o custo praticar uma agricultura biológica, nem sempre fácil é certo, devido às pragas de pequenos bicharocos que gostam tanto de boa comida quanto nós!