março 17, 2020

Quarentena - dia 4





Hoje a minha querida filha Diana fez anos.

Não foi o melhor aniversário que já teve, mas foi o possível. O jantar fora entre família e amigos para comemorar ficou-se pelos cinco da casa, mas em casa. Hoje mais pareceu “as aventuras dos cinco”, como aquela série de livros que tanto sucesso fez em tempos.

Há associações engraçadas e aos anos dela, sempre associou gelatina de morango. Não é muito exigente, ou então a mãe foi demasiado repetitiva eheheheh. Hoje, arranjou-se um pacotito da de tutti-fruti na despensa, mas para compensar a falta da cor vermelha, teve direito a uns quartos de morangos por cima.

Por sorte, vivemos numa pequena cidade com campo à volta, pelo que nem é difícil fugir do contacto com outros humanos, se formos de carro. E foi o que fizemos hoje para a nossa menina ter um dia minimamente especial. Deu para desanuviar e gastar alguma energia. Ainda esfolei um joelho, mas isso é o menos importante.

No final do dia ainda ganhou um bolo de ló com cobertura de chocolate feito pelo namorado. Deliciámo-nos. 











É nas coisas simples que reside o segredo para a felicidade.

 🍀


O Mundo é a nossa casa









Amanhã quando acordares abre bem os olhos e olha bem para tudo.
Ver com atenção é ver tudo como se fosse pela primeira vez.
Ver com atenção é espantar-se de as cores serem como as vemos
sabendo que poderiam ser diferentes e com certeza melhores.
Ver com atenção é também aprender o que querem dizer as coisas.


- ed. da Comissão Nacional do Ambiente
(do livro de português Nascer2, do 2º ano do ciclo preparatório – edição de 1977)


Que esta limitação da liberdade e a falta de alguns bens e hábitos aos quais estávamos habituados, nos sirvam para dar mais valor às pequenas coisas da vida. É ver para lá do supérfluo. É ver com o coração.



março 16, 2020

Quarentena - dia 3
















Hoje acordámos com um enorme vendaval. Ventania que levou tudo pelos ares e trouxe-nos mais alguma coisa com que nos entretermos. Era a roupa pendurada na corda a secar e que voou. Foram as árvores que se despiram mais um pouco para nos dar o que varrer… E acordámos fora de horas sem despertadores e nem compromissos para nos fazer saltar da cama às pressas.

As filhas já tinham ido cada uma para os seus respectivos postos de trabalho.

O pão faz falta nas mesas e o dinheiro para pagar aos funcionários também. Reduziram-se horários, limitam-se os produtos à venda e criam-se barreiras. É entrar e andar (ou assim deveria ser). A filhota Helena é uma guerreira.

Noutra linha da frente encontrava-se a filhota Diana. As escolas encerraram, as educadoras podem trabalhar a partir de casa, mas há limpezas e desinfecções a fazer e isso cabe às auxiliares. O quase marido, à laia de segurança protector, nem ficava tranquilo se não a fosse levar e buscar. Pelo menos não andou de transportes públicos. Menos mal. À saída passou pelo supermercado para trazer meia dúzia de coisas que nos fazem falta. Comida.

Enquanto isso, nós dois, o marido e eu, demos outra cara à arrecadação da oficina. Agora sim, já dá gosto lá entrar.



Desde que a Helena migrou do 1º andar para o sótão que os meus pertences vieram pousar em cima da mesa de trabalho da oficina e em todos os cantinhos possíveis. Desconfio que as mudanças têm o poder da multiplicação. Nem sei como é que aquilo tudo cabia nas prateleiras lá de cima. Eu bem que tentei fazer de conta que nada daquilo é real, que é só uma alucinação, ou uma ilusão de óptica, mas sempre que corro a porta há uma montanha de livros prestes a escorregarem por ali abaixo. E mealheiros, bibelôs, flores de papel…

Hoje armei-me em super mulher e meti mãos à obra, mas perdi-me entre os livros e encontrei algumas preciosidades, como o meu velhinho livro de português do 2º ano do ciclo (actual 6ºano). Fiquei mesmo feliz.



🍀


março 15, 2020

Quarentena - dia 2





Hoje foi dia de continuar a tratar do quintal à semelhança de ontem.

É o que se pode chamar de ir para fora cá dentro. O marido e o genro entretiveram-se a limpar uns ramos da nespereira e o chão do nosso pedacinho de verde. Foi limpar, sujar, limpar… E a saga vai continuar nos próximos dias. Da minha parte, deu-me para ir começar a organizar a arrecadação da oficina, tarefa à qual se juntou o marido. A ameaça de chuva interrompeu-nos mas amanhã também é dia. E nos seguintes também.

Enquanto isso, lá fora tínhamos uma das filhas a trabalhar para que os bens essenciais não faltem nas mesas. É estranho, como uma simples ida à rua agora nos parece algo tão complexo e que requer tanta logística. É a soma de estratégias para evitar voltar contaminados para casa, subtraindo contactos sociais e aumentando em cuidados redobrados. Parece coisa de filme. Se ao menos desse para desligar a tv quando nos fartássemos. Ou o covid-19 fosse como nos mostram as imagens, aquelas bolinhas com excrescências que mais parecem cravos-da-índia espetados, mas do tamanho de laranjas. Quando viessem directas a nós, só tínhamos que nos desviar.

A outra filha e respectivo boyfriend numa tentativa de fugir da civilização foram respirar o ar do campo. Pelos tapetes de Yoga e pelos vídeos que vi dos dois, tenho a certeza que a natureza lhes fez muito bem e mantiveram o corona à distância.

Depois seguiu-se a saga dos filmes. Houve quem preferisse ir descansar cedo porque amanhã tem de trabalhar e estes dias têm sido duros. Eu fiquei a ver a Maléfica em segunda fila, enquanto escrevo este texto para o blog.




🍀



março 08, 2020

Em jeito de reflexão...






Já tive a minha fase feminista, pois claro, lá por volta dos 15 ou 16 anos, numa época em que se vivia com fervor a política, os direitos e tudo o mais. A democracia era uma coisa recente. Estávamos nos finais dos anos 70, início dos 80. Os jovens da minha idade tinham participação activa nas campanhas políticas e tudo era vivido com paixão. E era com paixão na voz que eu defendia os direitos das mulheres e a igualdade entre estas e os homens. Foram tantos os serões em que acabava sozinha com o meu pai em frente à tv, em conversas mais ou menos filosóficas e que não raras vezes resvalavam para um terreno minado. Começávamos tão bem, mas às tantas lá estávamos nós em acesa discussão, com um de cada lado da trincheira. Cada um com o seu ponto de vista. Já nem sei se ele era assim tão machista, ou se simplesmente gostava de ser do contra. Pelo menos nas nossas conversas. Que ele não era o suprassumo da paciência isso é um facto. Como naquela noite, já com todos na cama e mais uma vez nós a falar de tanta coisa e de nada. Assuntos mundanos. Filosóficos. Pontos de vista. A tv a passar qualquer coisa que já nem recordo… às vezes, quase sempre, eram filmes que víamos e as notícias. Também não tínhamos muita escolha, só havia dois canais. E nós, ou eu, às tantas estávamos a falar da (des)igualdade entre homens e mulheres. Devo referir que a tv encerrava às 23h30, pelo que também não passávamos a noite inteira no paleio. O encerrar da emissão marcava muitas vezes o fim das nossas conversas, quando as tínhamos. Daquela vez devo ter falado com demasiada paixão, só pode. Valeu-me uma tremenda bofetada, a única que me lembro do meu pai alguma vez me ter dado. É que nem era sobre nós e nem sobre ele. Eram só pontos de vista. E a nossa discussão acabou abruptamente, com cada um de nós a ir dormir a chorar. Talvez mais a chorar que a dormir. E eu com as lágrimas numa mistura de sabores a sal e sangue à conta do lábio rebentado pelas costas da mão pesada.

Hoje estou mais sensata e menos feminista, porque o que conta, não é quem tem mais direitos, quem manda mais, quem é mais e sim, que sejamos todos iguais mas respeitando as nossas diferenças. Que cada um seja o que quiser sem ter de pisar ninguém e nem morrer por isso. Hoje sou pela liberdade da individualidade, seja mulher ou seja homem.

Bem sei que se hoje posso falar assim é porque lá atrás, alguém sofreu e lutou para que as mulheres tivessem os mesmos direitos que os homens e o preço muitas vezes foi alto. Pagou-se até com a própria vida. E há ainda, algures por este mundo fora, muitas mulheres sem voz. Mulheres sombra.

A minha publicação de hoje vai para essas mulheres, em especial aquelas que ao longo dos tempos perderam a vida em busca de um pouco de dignidade e respeito. (mas sem festa).


                                                                             Imagem: Pinterest

março 01, 2020

Um dia surreal - 29 de Fevereiro













29 de Fevereiro. Um dia que só acontece de 4 em 4 anos e o nosso ontem foi surreal. Terminámos o dia num baile de máscaras, de um Carnaval fora de tempo. Esta foi a foto possível, nós, as três gerações em pose na rua antes de entrarmos para o carro que nos levou ao salão de baile. Eu, a minha mãe e a minha filha. As três da vida "airada" como diziam lá na terrinha que me viu crescer. Nós sempre prontas para a festa. A enfermeira e a chinesa (ou seria japonesa?) dispensam apresentações. Eu fui o repórter ávido por notícias daquele que é o assunto mais falado da actualidade. O tal de coronavírus. Foi só uma brincadeira, nada mais.

Mas antes, ainda no começo do dia, fomos a um evento com um mês de antecedência. O dia 29 estava lá, só o mês que é seria outro. Um desencontro que acabou por ter a sua piada e serviu de mote a um almoço familiar num restaurante com uma vista espectacular. Foi a refeição certa escrita por linhas tortas. Não posso deixar de fazer referência ao WC do sítio, que deve ter tido um designer com um sentido de humor peculiar. Sentada no trono senti-me como na minha casa-de-banho quando estou no banho e entra lá alguém. Tem daquelas portas que tapam mas não escondem grande coisa. Fez lembrar aqueles sonhos que por vezes temos, em que queremos muito fazer um xixi mas toda a gente nos vê. 

No caminho de volta demos com uns acasos para lá de transcendentes, surreais, impensáveis. Parecia que estávamos no meio daqueles filmes de apanhados. Onde já se viu levar uma carrada de ramos sem irem devidamente acondicionados e presos. Óbvio que um deles veio parar à estrada e foi apanhado na parte de baixo de um carro que também por ali transitava, enquanto uma motorizada tentava ganhar terreno ao condutor descuidado, deixando à nossa frente um rasto de fumo. Mas conseguiu. E a camioneta encostou à borda.

Mais à frente, um condutor distraído ia com a bagageira escancarada. Foi a nossa vez de o alertar para encostar e fechar aquilo antes que os pertences voassem de lá para fora. Tudo ontem era distracção e tudo era escancarado. Portas escancaradas. Intimidades escancaradas. Vidas escancaradas. Vidas postas a nu. O universo ontem andou no mínimo estranho.









Modéstia à parte, mas a criatividade de última hora ainda nos valeu o 3º prémio e que já faz parte da garrafeira made maga rosa.



Para terminar o dia, ou a noite, conseguimos chegar a tempo de recuperar a tampa da objectiva que tinha esquecido horas antes no parapeito da janela. Estava lá no cantinho atrás do gradeamento e por isso, ou porque ainda há gente honesta, não vou precisar de encomendar uma nova. 

Surrealismo de um Mercúrio retrógrado no signo mais cabeça no ar de todos (Peixes), ou as energias de um dia que só acontece uma vez a cada 4 anos? Talvez ambas. 



fevereiro 26, 2020

A bruxa que há em mim




Carnaval para mim representa brincadeira, risos, criatividade e liberdade. A liberdade de podermos ser as personagens que nos apetecer sem sermos apelidados de loucos (se bem que isso nem me preocupa assim tanto).

Em retrospectiva, dou por mim a pensar que a fantasia que me encaixa na perfeição (para além de palhaça) é a de bruxa. E é aquela de que mais me mascarei até hoje. A bem ver, esta já está na minha essência só não uso as vestes típicas e o chapéu de bico no meu dia-a-dia.

Se ter uma intuição mais afinava é ser bruxa, então eu sou.
Se gostar das mezinhas que a natureza nos dá é ser bruxa, então eu sou.
Se procurar respostas nas cartas é ser bruxa, então eu sou.
Se ler o perfil astrológico das pessoas é ser bruxa, então eu sou.

Vendo bem, o ser bruxa está-me no ADN. Tenho uma mãe que é cartomante. À minha avó paterna, que não sei bem até onde iam os seus conhecimentos nestas artes, cheguei a ver, ainda eu era criança, aplicar ventosas nas costas da minha tia para lhe tirar dores. Isto foi uma coisa que sempre me suscitou curiosidade. Onde terá ela aprendido a técnica? Tendo em conta que era analfabeta… Nem o nome dela sabia escrever. E não eram uns copinhos quaisquer não senhor. Tinha as ventosas como devem ser, lembro-me muito bem. Também a vi a cortar o quebranto, ou lá o que era, num pau de figueira. Se isto não é ser bruxa, então não sei o que seja.

E depois havia a minha avó materna, que morreu jovem com um bebé no ventre e dizem que era santa, pela maneira de ser e porque o corpo se manteve intacto durante todos os anos em que permaneceu debaixo da terra. Às tantas cansaram-se de a manter enterrada e levaram-na sabe-se lá para onde, já que a terra a devolvia sempre como tinha sido lá posta. À minha mãe recusaram-se a dar explicações alegando não haver registo. Há quem diga que a levaram para uma igreja. Só perguntas sem resposta, mas de uma coisa tenho a certeza, havia ali qualquer coisa fora do comum naquela minha antepassada.

Numa leitura da aura foram-me descritas algumas vidas antes desta e era sempre alguém que fazia uso de mezinhas e da magia, ou com conhecimentos fora do tempo e do habitual. Pelos vistos, está-me no sangue e na alma.

Bem, vivêssemos nós há uns séculos atrás e eu a esta hora já estava na fogueira.